Artigos 

Publicado em O Estado de S. Paulo, 31/10/2006.

A força da desigualdade

Será que o brasileiro é desonesto? Essa pergunta atormenta os que não entendem a vitória de um candidato que esteve cercado por dezenas de acusações de corrupção.

Penso que a explicação não deve ser buscada na moral do povo. Quem deu a vitória a Lula foi a brutal desigualdade que impera neste país. Basta dizer que, enquanto os 10% mais ricos ficam com 40% da renda, os 10% mais pobres ficam com apenas 1%. É isso mesmo: 40% vs. 1%!

Esse é um caldo de cultura propício para o sucesso de qualquer candidato que, com boa pontaria, direcione programas assistencialistas para pobres e remediados. Com base no tripé – desigualdade, assistencialismo e propaganda – somado a noticiários favoráveis, Lula captou o interesse dos que precisam comer, vestir-se e divertir-se.

Em artigo que publiquei em 2001 ("Riqueza e felicidade", Jornal da Tarde, 26/12/2001), usei dados para mostrar que, para ser feliz, todos precisam de um bom convívio com familiares e amigos. Mas, nas classes de renda mais baixa, o acesso a bens materiais é crucial para a felicidade.

A satisfação é a base da felicidade. As pessoas se sentem satisfeitas quando avaliam o conjunto global de sua vida de modo favorável, incluindo o julgamento do passado, a vivência do presente e a visão do futuro.

Renda e acesso a bens contam muito para os pobres e remediados, onde dominam vários tipos de privação. A relação entre renda e satisfação é curvilínea. Nas camadas abastadas, a renda e o acesso a bens perdem força, onde cresce o papel do bom convívio com amigos e familiares, o que nem sempre ocorre. Daí a incidência de tanta infelicidade no mundo dos ricos.

Adaptando os dados de 2001 para os dias de hoje, verifica-se que transferências de renda que permitiram um maior acesso a bens de consumo tiveram um poder decisivo para elevar abruptamente o nível de satisfação entre os que têm renda familiar de um a cinco salários mínimos. Esse efeito manteve-se forte também para as famílias de renda entre 5 e 10 salários mínimos, pois inúmeras carências básicas atingem a classe média baixa (gráfico).

Ou seja, as transferências de renda promovidas por Lula tiveram um colossal sucesso eleitoral junto a dois terços dos eleitores. Depois de garantir bolsa família, aumento salarial por decreto (salário mínimo), tratamento bucal gratuito, antecipação do 13º. para os aposentados, vagas nas universidades e inúmeras outras concessões que contentam as famílias de vida apertada, Lula acenou com ganhos ainda maiores em um futuro mandato.

Esses eleitores votaram com o bolso, mesmo porque Geraldo Alckmin foi definido pela campanha de Lula como uma grande ameaça às conquistas obtidas. A preservação da satisfação falou mais alto, o que não tem nada a ver com honestidade ou desonestidade.

A questão é saber até que ponto se pode sustentar essa satisfação com políticas populistas que se baseiam transferências do governo.

O populismo passa por quatro fases. Na primeira, a da glória, as benesses trazem a vitória esperada. Na segunda, começa-se a duvidar da estratégia porque o déficit aumenta, os investimentos caem e os empregos não aparecem. Na terceira, vêm os primeiros sinais do colapso com elevação da inflação ou chegada da recessão – a menos que se estatize. Na quarta, volta a necessidade de se utilizar políticas duras para re-equilibrar as finanças públicas, com decepção popular e mudança do governo.

Assim tem sido o populismo da América Latina, materializado por Getulio Vargas e Juan Domingo Perón e, mais recentemente, por Hugo Chaves, Evo Morales, Néstor Kirchner e Lula.

Resta saber se, contrariando a História, suas políticas conseguirão garantir os investimentos para se chegar ao emprego e ao desenvolvimento. Quem viver verá.