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Publicado em O Jornal da Tarde,02/01/1997

O século das mulheres

O Jornal da Tarde sempre me estimula a fazer um balanço do ano que termina e projeções para o ano que entra. Os assuntos são tantos que o mais trabalhoso é decidir qual deles abordar. Depois de muito pensar, resolvi revisitar um estudo que fiz há trinta anos atrás.

Nos meados dos anos 60, pegava fogo o movimento feminista liderado por Bety Fridan. A literatura dominante era do tipo reinvidatória e doutrinária. Mas, os dados disponíveis mostravam, realmente, uma enorme discrepância entre as regalias dos homens e das mulheres.

No caso brasileiro isso era patente. Marvin Harris tinha recém publicado as seguintes constatações: (1) No Brasil, o marido e os filhos mais velhos comem em primeiro lugar e recebem a melhor parte da comida; (2) as mulheres - mãe e filhas - esperam que eles terminem para depois começar a comer; (3) em público, espera-se que as mulheres fiquem quietas e em segundo plano (Harris, 1956).

São constatações simplesmente escandalosas para os dias atuais. Mas, essa realidade valeu por muito tempo. Um pesquisador dos costumes no meio rural brasileiro testemunhou inúmeras cenas do seguinte tipo: "O dia estava frio e chuvoso; o pai e o filho passavam a cavalo, cobertos por um capote, enquanto que a mãe e filha, sem sapatos, iam a pé atrás dos dois" (Santos, 1966).

Bernard O. Rosen, que também andou por estas bandas estudando a família brasileira, concluiu: "Não se espera da mulher que ela seja companheira do esposo. Pelo contrário, as suas principais atividades giram em torno da criação dos filhos e da prestação de serviços ao marido" (Rosen, 1963).

Emílio Willems, catarinense de origem, formado na Alemanha e professor em São Paulo - fui aluno dele - havia descoberto que os valores sociais dos homens compunham o que chamou de "complexo da virilidade" enquanto que os das mulheres compunham o "complexo da virgindade" (Willems, 1953). Esperava-se da mulher que ela obedecesse ao marido e não tivesse iniciativas públicas de qualquer espécie.

Foi no meio da acalorada polêmica do feminismo que, em 1966, decidi estudar o assunto com base em dados. Entrevistei, com ajuda de assistentes, uma amostra de 321 casais (maridos e respectivas esposas) e acabei concluindo a mesma coisa: as mulheres tinham "scores" bem mais baixos do que os homens nas várias dimensões da escala de modernidade usada na pesquisa (Pastore, 1970).

O sucesso das mulheres

Para quem teve a sorte de viver até hoje, vê-se que a história já deu uma grande virada e tudo indica que o próximo século será o século das mulheres. As estatísticas mostram que, em quase todos os países, as meninas brilham mais do que os meninos na escola. Na Europa, Estados Unidos, Japão, Austrália e Nova Zelândia, as mulheres de hoje são muito mais educadas do que foram há trinta anos atrás e já ultrapassam os homens.

O nível educacional da força de trabalho mundial está subindo, em grande parte, pela crescente participação de mulheres bem preparadas. Nos Estados Unidos, a proporção de homens com nível universitário passou de 17% em 1970 para 28% em 1995. Entre as mulheres, o salto foi muito maior - de 11% para 27%. Hoje, mais de 10% dos cargos de diretoria das 500 maiores empresas americanas são ocupados por mulheres (Dobrzynski, 1996).

As cinco profissões que mais crescerão nos próximos dez anos estão nas seguintes áreas: atendimento domiciliar (especialmente a idosos), serviços de saúde, cuidados com a criança, processamento de dados e serviços administrativos. Os dados sugerem que as mulheres dominarão todas elas. Nos Estados Unidos, a participação feminina nessas áreas será de 79%, 70%, 70%, 68% e 51%, respectivamente (BLS, 1996).

é verdade que esse sucesso profissional não foi acompanhado de uma evolução salarial correspondente. O acesso maciço das mulheres a essas áreas (que demandam muita educação) reflete ainda a disposição de moças bem educadas que aceitam trabalhar por salários mais baixos. Mas, a tendência é de uma convergência salarial gradual, especialmente nas profissões de conteúdo educacional mais alto.

Nos últimos trinta anos, várias profissões que eram claramente masculinas tornaram-se neutras ou femininas. Ninguém imaginava naquele tempo que toda a segurança de um aeroporto pudesse ficar à cargo de mulheres. A feminização da profissão de policial está sendo meteórica. O mesmo ocorre com os juizes, advogados, médicos, arquitetos, veterinários, jornalistas, fotógrafos, corretores, gerentes de bancos, garçons, etc.

O desempenho da mulher brasileira

As vantagens das mulheres não estão apenas no terreno da educação mas também no da demografia. Em todos os países, a mulher está vivendo cada vez mais e, como regra, vive de três a sete anos mais que o homem. No Brasil, a diferença de vida média é de quase quatro anos em favor da mulher.

As mulheres estão menos sujeitas à morte por certas doenças que afetam bastante os homens. Dentre os brasileiros que morrem de infecções intestinais, por exemplo, 56% são homens e 44% mulheres. No caso de doenças parasitárias, as proporções são de 67% e 33%, respectivamente. A morte por moléstias isquêmicas do coração se divide em 59% para os homens e 41% para as mulheres. Entre as vítimas fatais de homicídios 85% são homens e apenas 15% mulheres (SIM, 1995).

O Brasil apresenta as mesmas tendências mundiais no campo da educação - embora em nível mais baixo. O rendimento escolar das meninas é bem superior ao dos meninos. No primeiro grau, a taxa de aprovação feminina é de 81%; a masculina, 78%. No segundo grau, essas porcentagens são de 88% e 80%, respectivamente.

A mulher brasileira vem participando de maneira crescente do nosso mercado de trabalho. A proporção de mulheres que trabalhavam fora de casa subiu de 23% em 1965 para 43% em 1995. A grande proporção de mulheres educadas teve forte responsabilidade na elevação da média de escolarização da força de trabalho do Brasil. Entre os que têm curso universitário incompleto, 55% são mulheres e 45% homens. Também no caso de curso completo, as mulheres superam os homens - 51% para 49%.

As mulheres brasileiras, como no resto do mundo, ainda estão em desvantagem no campo salarial. Na média, os seus salários são cerca de 25% inferior aos dos homens para os mesmos níveis educacionais. Mas, a convergência salarial está chegando, em especial, nas profissões que demandam muita educação.

As mulheres estão avançando também nas áreas da cultura e da política. Nélida Piñon, em 1996, tornou-se a primeira mulher a ocupar a Presidência da Academia Brasileira de Letras a exemplo de Madaleine Albright, nos Estados Unidos, que foi a primeira mulher a ocupar o cargo de Secretário de Estado.

As últimas eleições municipais no Brasil foram um verdadeiro "passeio" para as mulheres. O povo elegeu 288 mulheres para o cargo de prefeito - enquanto que em 1992 foram apenas 171. As vereadoras somam mais de 5.000, em contraste com 1.672 eleitas em 1992.

No agregado, as mulheres que preenchiam 3,5% dos cargos de vereadores em 1992, passaram para 7% em 1996 registrando, assim, um aumento de 100% em apenas quatro anos. As prefeitas que somavam 3,5% em 1992, passaram para 5,5% - 60% de acréscimo.

O avanço foi extraordinário. Há casos de mulheres que quebraram o domínio político de oligarquias seculares. Vejam o caso da Maria Pandeló, do PT. Aos 37 anos ela chegou à Prefeitura de Barra Mansa, derrotando um esquema de cinco famílias que dominou o poder local por quase meio século.

Mas, não é só no executivo e legislativo que as mulheres avançaram. Elas estão participando cada vez mais do poder judiciário. Cerca de 25% dos cargos de juizes são ocupados por mulheres. Nas cortes superiores a presença da mulher está se tornando cada vez mais freqüente. O Ministro José Celso de Mello do Supremo Tribunal Federal não esconde seu desejo de ver uma mulher na nossa suprema corte, já em 1997, na vaga do Ministro Francisco Rezek que vai para Haia.

Se, de um lado, as diferenças salariais permanecem desfavoráveis, é inegável que o poder de compra das mulheres vêm crescendo de forma acelerada - a ponto de despertar o interesse de inúmeros setores industriais. Só em 1996, as vendas de cosméticos e perfumes sofisticados cresceram 60% sendo que a maior parte desse crescimento se deu nas camadas mais baixas através de compras a domicílio. A democratização da boa aparência está chegando no Brasil.

As mulheres da atualidade consomem muitos produtos caros. No Brasil, elas compram um terço dos automóveis pequenos e médios. Já foi o tempo em que usavam o veículo selecionado pelo pai ou marido. Hoje, a maioria faz escolhas pessoais. Elas escolhem também os equipamentos opcionais. Pagam o que compram e saem dirigindo um veículo cujo certificado de propriedade está no seu nome. A indústria automobilística mundial conhece bem a importância de pesquisar os gostos e preferências das mulheres antes de desenhar novos modelos.

O futuro dos homens

Essas são indicações inequívocas de uma grande abertura do mundo do trabalho e do consumo. Os homens já começam a se preocupar. Muitos, sentindo-se "encurralados" pelos trinta anos de conquistas femininas, passam para a ação. Em julho de 1997, São Paulo hospedará o Segundo Congresso Internacional da Identidade do Homem (o primeiro foi no Canadá, em 1995) para "definir melhor o papel dos homens e renegociar os seus direitos com as mulheres".

Vejam só: renegociar direitos! Se estivessem vivos, o quê os nossos avós pensariam dos homens atuais?

é duvidoso que o novo movimento masculino consiga reverter a trajetória ascendente das mulheres. As forças que as impulsionam no mercado de trabalho são muito concretas: mão de obra educada, sadia, assídua, disciplinada e que trabalha por menos. é difícil competir com elas.

Para nós, homens brasileiros, é bom não reclamar. Felizmente estamos longe da situação dos nossos companheiros da Califórnia que tiveram de engolir uma lei aprovada pela Assembléia Legislativa - dominada por mulheres - que instituiu a "castração química" (Economist, 1996). Em lugar do bisturi, estão sendo usadas drogas fortíssimas que fazem o mesmo trabalho, só que de modo gradual e progressivo, para que o condenado possa sentir na pele o poder feminino dos dias atuais.

Por ora, a pena está sendo aplicada sé aos reincidentes de crimes sexuais. Mas, nada impede que ela venha a ser estendida aos preguiçosos, acomodados e mal educados...

é bom por a barba de molho. Recomenda-se não abusar. Homens do Brasil, lembrem-se: os tempos mudaram! A competição está apertando e o poder está saindo das vossas mãos.

Por isso, rapazes de todo o mundo: educai-vos! Esforcem-se e estudem o máximo para que vocês possam, um dia, chegar aos pés das mulheres.

Referências

BLS (1996)

Occupational Projections, Washington: Bureau of Labor Statistics.

Economist (1996)

"Laws of Impotence", in The Economist, 21 Set 96.

Harris, Marvin (1956)

Town and Country in Brazil, New York: Columbia University

Pastore, José e outros (1970)

"A Mulher e a Modernização da Família Brasileira", in Pesquisa e Planejamento, vol. 12.

Rosen, Bernard O. (1963)

"Socialization and Achievement Motivation in Brazil", American Sociological Review, vol. 27., no. 5.

Santos, John F. (1966)

"A Psychologist Reflects on Brazil and Brazilians", in Eric N. Baklonoff (ed.), New Perspectives of Brazil, Vanderbilt: University Press.

SIM (1995)

Sistema de Informações sobre Mortalidade, Brasília: Sistema Unificado de Saúde (SUS).

Willems, Emílio (1953)

"The Structure of the Brazilian Family", in Social Forces. vol. 31, no. 4.