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Publicado no Jornal Correio Brasiliense, 07-03-2007.

Dia da mulher: o que comemorar?

Hoje é o dia internacional da mulher. Os dados do Brasil e do mundo mostram grandes progressos nos campos da educação, do trabalho e até da política.

Quando era estudante, nos idos dos anos 50, li um trabalho do antropólogo americano Marvin Harris que, em suas andanças em nosso país, constatou o seguinte: (1) No Brasil, o marido e os filhos mais velhos comem em primeiro lugar e recebem a melhor parte da comida; (2) as mulheres, mães e filhas, aguardam que eles terminem para depois começar a comer; (3) em público, espera-se que as mulheres fiquem quietas e em segundo plano.

São constatações simplesmente escandalosas para os dias atuais. Mas, essa foi a realidade por muito tempo. Hoje, em muitas áreas, as mulheres brilham mais do que os homens. O desempenho das meninas na escola é superior ao dos meninos. Em várias profissões, as mulheres dominam, como é o caso dos médicos, dentistas, advogados, arquitetos, juizes do trabalho e várias outras do mesmo gênero.

Ao contrário dos países da Europa e do Japão, onde as moças não querem ter filhos, as mulheres brasileiras continuam ativas nesse campo. O Brasil tem 46 milhões de mães. A média de filhos por mulher caiu bastante nas ultimas décadas. Mas, ainda assim, elas estão repondo as gerações que se vão.

Em certas faixas etárias, a taxa de fecundidade é tão alta que constitui um problema social. Para cada 100 adolescentes, em 1980, havia 8 filhos. Hoje, saltou para mais de 9 filhos. Entre as meninas pobres, a média é ainda mais alta. Nas favelas do Rio de Janeiro chega a 26 filhos.

O numero de mães solteiras aumentou de 2,7% para 16,4% no período considerado. Isso tem grandes repercussões embora, há que se reconhecer que muitas mulheres vêm optando deliberadamente pela "produção independente".

Nesse campo houve uma verdadeira revolução de valores. Até o final dos anos 50, o relacionamento sexual entre homens e mulheres se baseava no engajamento amoroso de longa duração. Para ter sexo era preciso casar.

Na década de 60, o mundo assistiu atônito a separação entre sexo e casamento. O sexo foi atrelado à sinceridade dos parceiros, e não necessariamente ao matrimonio. Mas a família continuou essencial para criar a prole.

Hoje em dia, o casamento vem se separando da família. Muitas crianças são criadas por parceiros não casados e que não pretendem se casar. No período de 1970-75, a proporção de mães isoladas saltou de 7,5% para 17,5%. Deu-se a popularização das "barrigas de aluguel". Para uma parcela expressiva da população, o sexo se descolou do casamento e o casamento se descolou da família.

Resta saber qual será o impacto dessa revolução nos produtos dos novos relacionamentos – os filhos. Para a mulher já se sabe: sobrecarga de trabalho. Cerca de 30% das mulheres que trabalham são chefes de domicílios e vivem sós com os filhos, sem cônjuge. Muitas são aposentadas e continuam trabalhando para sustentar a família.

A mulher vive mais do que os homens. Para cada 100 mulheres idosas (60 anos e mais) há apenas 82 homens. Em 1991, as idosas eram 7,8% da população. Hoje são mais de 10%.

Mas o que elas fazem com mais anos de vida? Muitas desfrutam o amor em família. Outras, amargam a solidão. Isso porque a mulher, quando enviuvece, raramente recasa. O homem, sistematicamente recasa.

As viúvas que moram com filhos e noras (ou genros) têm uma vida apertada. Na ausência das filhas e noras que trabalham fora, muitas delas assumem a administração da casa e os cuidados das crianças. Em inúmeros casos, elas contribuem financeiramente com suas aposentadorias e pensões.

Ou seja, os anos extras das mulheres não são fáceis. Os dados para o estado de São Paulo indicam que, em 1981, 9% das mulheres que trabalhavam tinham mais de 60 anos. Hoje, essa proporção ultrapassa a casa dos 19%. E, para complicar, são as que têm os menores rendimentos.

O que comemorar neste dia? Não se pode ignorar o avanço que as mulheres fizeram em matéria de educação e profissão assim como no campo dos direitos individuais. Mas, mesmo nessas áreas, a caminhada é longa para se chegar a uma situação de maior igualdade.

As mulheres têm demonstrado garra e competência. O que resta ser feito depende muito dos maridos e companheiros aceitarem uma nova divisão do trabalho na qual os homens passem a dividir com as mulheres, de maneira mais equânime, as tarefas do lar e os cuidados com as crianças. Os que prometerem isso, darão um belo presente às suas mulheres neste dia festivo.