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Publicado em O Jornal da Tarde,12/11/1998

A agonia do emprego

A população mundial é de quase 6 bilhões de pessoas. A OIT - Organização Internacional do Trabalho estima que quase 900 milhões de seres humanos estão desempregados ou subempregados. é um número fantástico! Um problema desesperador.

O desemprego, hoje em dia, não é mais privilégio dos países pobres. Na Alemanha, ele chega a quase 10%; na Itália, 11%; na França, 12%; na Bélgica, 14%; e na Espanha, quase 25%. Ele atinge de modo mais duro, a juventude. Nos Estados Unidos, as pessoas com menos de 25 anos de idade amargam um desemprego de 12%; na Inglaterra, 17%; na França, 25%; na Itália, 30%; e na Espanha, 35% (*).

O mundo está chegando no terceiro milênio sem conseguir gerar emprego para a gigantesca massa de pessoas que precisam trabalhar. Os chefes de Estado que formam o grupo dos países (o G-7) vêm se reunindo seguidamente para encontrar uma solução para esse doloroso drama mas, até aqui, nenhuma saída foi sequer aventada.

A criação de empregos ficou muito cara. Nos países mais avançados, gerar um emprego custa, em média, US$ 100 mil em termos de investimento. Isso se deve, em grande parte, ao alto custo das novas tecnologias e das medidas de proteção ambiental.

O excesso de regulamentação e os altos encargos sociais também contribuem para encarecer os empregos. Na Europa, esse conjunto de despesas ultrapassa a 50% do custo do salário - que já é bastante alto. Em países como o Japão, Estados Unidos, Canadá, França e Luxemburgo, um trabalhador qualificado, ganha US$ 15 por hora; na Holanda, 18; e na Alemanha, 21.

é verdade que a produtividade desses trabalhadores é elevadíssima. Dois ou três operários qualificados conseguem construir uma casa em poucas semanas - o que entre nós, exige 20 ou 30 pessoas trabalhando seis meses. Apesar disso, o alto custo da mão de obra vem levando os países mais avançados a automatizar tudo o que podem.

Não é a toa que os robôs se multiplicam por toda parte. é irônico verificar que os empregos para os robôs está crescendo a uma velocidade muito mais alta do que os empregos para os seres humanos. O homem moderno enfrenta, hoje, a concorrência dos novos entes que ele mesmo criou. Na década de 80, quando surgiram, o mundo acumulou 30 mil robôs. Em 1990, já havia 400 mil. Hoje, eles ultrapassam a casa do milhão. Até o fim do século, serão bem mais de dois milhões. E, dizem os entendidos, que a revolução da mecatrônica mal começou - sendo que seus reais efeitos só serão sentidos à partir do ano 2020.

Para as empresas modernas, inexiste a escolha entre inovar ou não inovar. As inovações tecnológicas são essenciais para melhorar a qualidade dos produtos, diversificar a produção e reduzir os custos. A empresa que não inova, cai fora do mercado; fecha as portas; e seus trabalhadores perdem o emprego.

A corrida tecnológica é inevitável e a sua velocidade é meteórica. Na década de 60, uma novidade industrial durava mais de três anos; na década de 70, isso caiu para dois anos; na de 80, um ano; e, hoje em dia, seis meses. No campo da eletrônica, uma novidade dura apenas seis semanas. Depois disso ela é "capturada" por vários produtores e entra na concorrência de mercado, deixando de ser novidade. No setor de serviços, as novidades duram apenas dias ou algumas horas. Um banco, por exemplo, lança um produto novo pela manhã e, na parte da tarde do mesmo dia, outros bancos aparecem com o mesmo produto melhorado.

As empresas da atualidade têm de inovar continuamente para enfrentar a concorrência numa economia que se torna cada vez mais global e competitiva. Os recursos das telecomunicações derrubaram as barreiras entre países. As tecnologias se transferem de um local para outro com a maior velocidade, superando as diferenças de cultura, língua, fusos horários, etc. é o fim da geografia.

Tudo isso está trazendo uma enorme revolução no campo do trabalho. Para captar as novas tecnologias, entendê-las e adaptá-las às condições de cada empresa, os trabalhadores precisam ser muito bem educados e não meramente adestrados. No passado, o adestramento permitia aos trabalhadores fazerem a mesma coisa durante toda a sua vida. Hoje, essa revolução tecnológica que não pára de acontecer, exige evolução de competências que dependem muito mais de educação do que de adestramento.

Num mundo que se torna cada vez mais competitivo, não há o que faça os empresários a se seduzirem por uma mão de obra não qualificada. Não haverá lei, regra ou sindicato que possa assegurar o emprego para quem não consegue apreender continuamente e acompanhar a evolução das tecnologias.

O próprio conceito de alfabetização mudou muito nos últimos 10 anos. Antes, era considerada alfabetizada a pessoa que assinava o nome e sabia ler e escrever coisas básicas. No novo mundo do trabalho, porém, só é alfabetizada a pessoa que consegue ler um manual de instrução. Isso é absolutamente fundamental para a pessoa continuar trabalhando.

A crise do emprego é mundial e o Brasil está dentro dela, com vários agravantes. O número médio de anos de estudo da nossa população economicamente ativa é de apenas 3,5 - enquanto que nos Tigres Asiáticos, é quase 10 anos; no Japão, 11; nos Estados Unidos, 12.

Entre os mais jovens, de 20-29 anos, a média brasileira chega perto de 6 anos de estudo. Mas, daí para frente é um grande desastre. No grupo de 30-39 anos, ela cai para 3,7. Entre os que compõem a faixa de 40-49 anos - pasmem - é de 1,9. E para os que têm mais 50 anos é de apenas 0,9.

Ao adotarmos o conceito de alfabetização acima mencionado, não tenho dúvidas em dizer que, no Brasil, cerca de 50% da força de trabalho é analfabeta. é provável que essa estimativa se torne até conservadora, ao se levar em conta a péssima qualidade da educação brasileira.

Se nos países ricos está difícil gerar empregos para gente educada, o que dizer do Brasil? O que será do nosso mercado de trabalho daqui há 10 anos - no ano 2005?

é bom lembrar que a força de trabalho no ano 2005 já nasceu. Ela engloba as crianças que hoje tem 10 anos ou mais e uma grande parte dos adultos de menos de 50 anos. Levando-se em conta os padrões demográficos atuais e o crescimento da população economicamente ativa, a força de trabalho brasileira, naquele ano, será de aproximadamente 95 milhões de pessoas.

Se o mundo desenvolvido vai entrar no terceiro milênio sem dispor dos empregos suficientes para acomodar os que precisam trabalhar, o que farão esses 95 milhões de brasileiros no ano 2005? Será que o Brasil encontrará uma solução diferente do resto do mundo?

Penso que, para raciocinar sobre o futuro, temos de fazer uma grande reciclagem nos conceitos até aqui usados para explicar o mercado de trabalho. Tradicionalmente, quando falávamos em acomodar a força de trabalho, pensava-se logo em empregos. A realidade nos mostra, porém, que a categoria "emprego" está agonizando. Está com os seus dias contados.

Tudo indica que o mundo do trabalho do próximo milênio será completamente diferente do mundo atual. O primeiro século vai sacramentar, em definitivo, a "morte do emprego", cujo atestado de óbito já vem sendo entregue a imensas parcelas da população mundial.

Estou me referindo aqui à morte do emprego. Não confundir com a morte do trabalho. Este vai continuar porque haverá muitas coisas a serem feitas. Mas o emprego, para uma grande parcela da humanidade, está condenado à morte.

Emprego, neste caso, refere-se à atividade específica, exercida de forma continuada por uma pessoa numa mesma empresa. Para a maior parte da força de trabalho, isso vai acabar.

Nas próximas décadas, as novas tecnologias forçarão as pessoas a exercerem atividades de forma intermitente; na empresa ou fora dela. Os locais de trabalho serão descentralizados. A movimentação diária das pessoas diminuirá - o mesmo ocorrendo com os congestionamentos de trânsito e poluição. Os trabalhadores terão mais domínio sobre o uso do tempo. Este será dividido entre trabalho, lazer e aprendizagem.

Os seres humanos trabalharão em projetos que têm começo, meio e fim. Terminado um projeto, eles passarão para outro, na mesma empresa ou em outra - ou até mesmo em casa - por meio de trabalho em tempo parcial; trabalho temporário; e tele-trabalho. Isso já começa a ocorrer.

Nos países mais avançados, o trabalho em tempo parcial já atinge a mais de 20% da mão de obra; na Suécia, chega a 25%; na Noruega, 27% e na Holanda, 35%. Isso tende a aumentar. O trabalho temporário, por sua vez, é exercido por mais de 10% dos trabalhadores sendo que na Grécia isso chega a 18% e em Portugal, quase 20%. Finalmente, estimativas recentes, antecipam que, para o ano 2005, o tele-trabalho (exercido em casa com base em telecomunicação) vai atingir quase 20% da população.

Em todas essas novas modalidades de trabalho, as pessoas serão demandadas a ser polivalentes. O mero adestramento em determinada profissão não mais será suficiente. Veja o caso da secretária. No passado, esperava-se dessa profissional uma boa datilografia e um certo senso de organização. Hoje, ela precisa dominar os processadores de texto que evoluem a cada dia; ter boa redação; conhecer línguas; trabalhar com um pouco de contabilidade; ajudar a controlar custos; saber organizar viagens; manusear máquinas sofisticadas de xerox, fax, modem; ter habilidade para persuadir pessoas; etc.

A competição vai acelerar esse processo. A produtividade do trabalho aumentará. As pessoas trabalharão menos e de modo mais eficiente. A queda inicial de remuneração, será superada por um aumento brutal da produtividade.

Mas isso só ocorrerá para quem investir bem e pesado na educação do seu povo. No Brasil, teremos de fazer em 10 anos, o que outros países demoraram séculos. Mas, isso é não é impossível de ser feito quando se consideram o alto poder da micro-eletrônica e das telecomunicações aplicadas à educação e ainda o provável envolvimento das empresas e da sociedade na tarefa de educar.

A Coréia alfabetizou e universalizou a educação secundária para todo o seu povo, em 30 anos. Isso foi feito sem as tecnologias pedagógicas acima mencionadas. Por quê não podemos fazer o mesmo em 10 anos?

é questão de começar. E temos de começar já pois, lembremos, a força de trabalho do ano 2005 já nasceu. Está aí implorando por educação. E boa educação. Isso será essencial para facilitar o seu engajamento nas novas formas de trabalho. O emprego vai morrer, mas os seres humanos continuarão trabalhando. Basta que sejam educados e que sejam capazes de apreender continuamente.