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Pulicado no Estado de São Paulo, 01/12/2015

Educação e trabalho para refugiados

 

A entrada maciça de 800 mil refugiados na Alemanha derrubou a popularidade de Ângela Merkel para o mais baixo nível (54%) nos últimos quatro anos. Ainda assim, a primeira-ministra insiste em ser dever cívico e humanitário assistir os que fogem da morte em seus países de origem. Mas, além do louvável altruísmo, há uma importante razão econômica para a Alemanha acolher tanta gente estranha em seu território: sua população está encolhendo de modo assustador e, em breve, a força de trabalho será insuficiente para sustentar o país.

É isso mesmo. A Alemanha está com a mais baixa taxa de crescimento populacional do mundo desenvolvido (8,2 por mil habitantes). A França e a Inglaterra têm taxa muito mais alta (12,5 por mil) e serão em breve os países mais populosos da Europa, ultrapassando a Alemanha. Essa é a sua realidade demográfica. Ao mesmo tempo que os alemães passaram a viver muito (88 anos em média), o país viu despencar a reposição da sua população. Em menos de 15 anos, a força de trabalho cairá de 61% da população para pouco mais de 50%, tornando cada idoso dependente de um jovem.

Os analistas sabem que, se nada mudar, a atual liderança econômica do país constitui uma miragem, pois, no futuro, o orçamento da Previdência Social não poderá ser administrado com mais cortes, porque isso inibe os investimentos e trava o crescimento econômico.

Merkel sabe que demografia é destino. E não tem conseguido reverter a situação atual. Os incentivos direcionados para estimular nascimentos não deram resultado. Entre 2000 e 2013, a taxa de fertilidade caiu 11%. O quadro se agrava a cada ano. É inevitável: a Alemanha precisa de migrantes.

É claro que a preferência do governo alemão seria em favor de estimular a migração de pessoas jovens, bem educadas e com a qualificação profissional que se faz necessária para alavancar a economia atual. Mas isso é sonho. Nenhum país rico e com uma força de trabalho bem preparada se destaca como exportador de profissionais. Ao contrário, a grande maioria dos migrantes é proveniente de países mais pobres, com educação e formação profissional precárias.

Se o Plano A é inviável, impunha-se criar um Plano B. É isso que está sendo feito com os refugiados na Alemanha. Muito rapidamente, o governo colocou os jovens migrantes aprendendo alemão à noite e trabalhando como estagiários e em serviços de baixa qualificação durante o dia - limpeza, entrega, jardinagem, etc. Para os mais educados, as escolas profissionais e universidades abriram vagas na medida do possível. O mais importante vem agora.

Como 40% dos refugiados são crianças, o governo mobilizou polpudos recursos para reforçar as escolas para atender imediatamente aqueles alunos. Mais de 3 mil professores foram contratados, dando prioridade ao ensino do alemão.

Pelo fato de aprenderem a língua com mais facilidade, as crianças estarão prontas para o bom ensino profissional alemão dentro de poucos anos e para entrar no mercado de trabalho a partir de 2030, cobrindo, assim, o referido déficit demográfico e reequilibrando a força de trabalho para manter a Alemanha como locomotiva do crescimento europeu.

Os jovens atuais também estão sendo beneficiados pela aprendizagem em serviço que realizam nas empresas e órgãos públicos que hoje os acolhem como profissionais de baixa qualificação. Além disso, adquirem importantes conhecimentos em escolas noturnas. Finalmente, a sua aculturação vem sendo ajudada pelas atividades do dia a dia, como o engajamento em atividades esportivas e de lazer.

É assim que os alemães estão fazendo a limonada dos limões que receberam com a abrupta onda de refugiados, que pode chegar à casa de 1 milhão até o fim de 2015. Mais uma vez, a Alemanha sairá da crise pela via da educação. Quem viver verá.

* José Pastore é professor da FEA-USP, presidente do Conselho de Emprego e Relações do Trabalho da Fecomercio-SP e membro da Academia Paulista de Letras