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Publicado em O Estado de S. Paulo, 08/12/2009.

Crescimento de 6%: e a mão-de-obra?

Multiplicam-se a cada dia as previsões de que o Brasil crescerá cerca de 6% em 2010. Com isso, surgem as preocupações com a energia e a infra-estrutura – ambas atrasadas para um crescimento sustentado.

Não se pode esquecer, porém, do suprimento de mão-de-obra qualificada. Toda vez que o Brasil cresce 4,5% ou mais, falta pessoal qualificado.

O crescimento da demanda por pessoas bem formadas decorre da própria dinâmica da economia moderna e, no caso do Brasil, dos grandes projetos que estão planejados para os próximos anos.

No que tange ao primeiro aspecto, a economia moderna se baseia em métodos de produção e venda que requerem um bom domínio de novas máquinas e equipamentos assim como de uma visão ampla de processos produtivos que se tornam cada vez mais dependentes de inovações tecnológicas e um ajuste adequado à questão ambiental.

Nos últimos tempos, as novas máquinas e equipamentos tornaram-se sofisticados, inteligentes e baratos. O uso de sua plena potencialidade, porém, depende da capacidade dos operadores – os seres humanos. Para tanto, não basta ser adestrado. É preciso ser educado -, e bem educado.

Esse é um colossal desafio para o sistema educacional, em geral, e para as escolas de formação profissional, em particular. Apesar dos reconhecidos avanços quantitativos dessas instituições, a defasagem qualitativa é enorme. A qualidade do pessoal formado por essas escolas, inclusive pelas faculdades, está muito atrás das exigências da produção. Eles vivem uma corrida especial, onde o ponto de chegada é móvel: a cada dia está num patamar mais alto.

Nessa nova realidade, as empresas desistiram de contratar diplomas. Elas buscam pessoas que tenham capacidade de apreender continuamente e que conseguem se adaptar a uma situação de permanente mudança.

Nossas escolas, na melhor das hipóteses, ensinam os alunos a passarem nas provas. São raras as que ensinam a pensar –, o que é fundamental para as empresas vencerem a crescente e efervescente concorrência interna e externa.

Se a competição é alta hoje em dia, ela será muito mais alta daqui a oito ou dez anos. Ao longo desse período, as empresas serão cada vez mais semelhantes no seu equipamento físico uma vez que as máquinas terão preços decrescentes. O que vai fazer a diferença no êxito das empresas é a qualidade do ser humano.

Além da demanda geral por educação de boa qualidade, o Brasil tem pela frente um enorme cardápio de obras e atividades. No horizonte visível estão os inacabados projetos do PAC e a arrancada do pré-sal e das grandes obras da Copa do Mundo e das Olimpíadas, além de todo o comprometimento do Brasil com a descarbonização do Planeta.

Para tocar tudo isso, a qualidade será tão importante ou ainda mais importante do que a quantidade. As empresas vêm tomando providencias para treinar seus quadros no próprio serviço, em seminários e workshops e até mesmo em cursos de formação continuada, em vários casos, em universidades corporativas.

É uma forma inteligente de compensar a escassez. Mas, ainda é pouco. Para crescer 6% e ganhar a guerra da concorrência, o Brasil terá de sair da situação atual na qual existem 50% de analfabetos funcionais para formar bons profissionais para as áreas de petróleo, geologia, siderurgia, grandes obras de infra-estrutura, sistemas de informática, meio ambiente, comércio exterior, contabilidade, direito, administração e outras que são essenciais à produção e comercialização em uma economia concorrencial. É um salto e tanto!

Ou seja, temos de nos preocupar sim com um eventual "apagão" de mão-de-obra qualificada. Além da demanda do setor produtivo, há o desafio de se tirar o grande atraso em inúmeras áreas sociais como é o caso da saúde, justiça, segurança, previdência e a própria educação. Aí também as mudanças tecnológicas são galopantes e a qualidade dos profissionais está defasada.

Em suma, os avanços quantitativos nos campos da educação e da formação profissional precisam ser urgentemente completados por melhorias na qualidade. Do contrário, a caça aos bons talentos será predatória e os salários subirão ao ponto de afetar a competitividade e o próprio crescimento almejado.

As experiências bem sucedidas pelo treinamento realizado pelas empresas assim como os programas de estágio e aprendizagem precisam ser mais incentivados. É uma forma de ganhar tempo.